Quando eu olho pro lado tem esse vaso. De vidro. Transparente. Redondo. Fica ali distante, não alcanço com os meus braços. Não tem nada dentro. Não é nada, na verdade, não tem significado nenhum, é um vaso, ora, um vaso comum. Não tem nada de mais. Mas é estranho. Não tem lado nenhum. E está me olhando. Um vaso me olhando. Me encarando. Perguntei pro meu irmão se parecia que o vaso estava me encarando, mas ele disse que não. Ainda assim, acho que o vaso está me encarando.
Virei pro lado duas vezes, desvirei, e ele continua me olhando. Por que o vaso está me encarando? Não tem vida, nem cheiro, nem cor tem, é um pedaço de nada, areia derretida e fundida num formato cilíndrico. Poderia até servir pra um propósito, se estivesse com uma flor dentro, um peixe, ou alguma bala. Mas não tem nada. Me pergunto agora porque a empregada colocou ele ali, seco e sem vida, nesse criado-mudo branco sem nada. Só o maldito vaso de vidro que insiste em me encarar.
Eu já perdi a paciência, e se o vaso tivesse paciência, também já a teria como perdida. Eu não vejo propósito algum nesse vaso. Não tem motivo de existir. Seria melhor quebrá-lo e jogá-lo fora. Será? Eu vou me cortar. Então deixa ele lá. Talvez o Atlas caia da prateleira e faça esse favor pra mim. O que fazer então com o vaso? Não sei o que se faz com alquilo que não tem propósito. Sei que se fosse gente já estaria na rua pedindo esmola. Mas é um vaso. Vidro. Caco. A única grandeza que ele ocupa é o espaço. O maldito vaso que me tirou a paz da noite. Já vi que estou perdendo meu tempo olhando pro vaso. Perdendo nada, ele que está roubando de mim, meu tempo, meu sono, meu descanso, não aguento mais essa tortura. Acho que vou dormir. Deixa esse vaso quieto. Não serve pra nada mesmo. Quem sabe um dia ele tome vergonha, e vá fazer alguma coisa de útil na vida? Afinal, vida é uma, e tempo passado é tempo perdido. Até para um vaso de vidro.
Rodrigo Aylmer
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Matéria abstrata
Esperar,
Esperança.
Consolo dos fracos.
Fé
O que é?
De nada vale, pois do nada veio
E se for verdade,
Se é,
Do que é?
Inpalpável
Abstrato
É como a verdade
Cada um tem a sua
Verdade,
Não é mentira.
Acredita, meu filho,
Se apegue a ela
Vocês nunca vão ter nada na vida
Porque no final,
Tudo vira pó,
E do pó, matéria solta.
Tudo acaba em nada
E quando o chega o nada
O nada vira tudo
E vem a esperança,
Que ali mora,
Sempre morou,
Ela vem,
Se prende,
Se funde,
E vira um só,
Pó,
Tudo,
Nada.
Rodrigo Aylmer
Esperança.
Consolo dos fracos.
Fé
O que é?
De nada vale, pois do nada veio
E se for verdade,
Se é,
Do que é?
Inpalpável
Abstrato
É como a verdade
Cada um tem a sua
Verdade,
Não é mentira.
Acredita, meu filho,
Se apegue a ela
Vocês nunca vão ter nada na vida
Porque no final,
Tudo vira pó,
E do pó, matéria solta.
Tudo acaba em nada
E quando o chega o nada
O nada vira tudo
E vem a esperança,
Que ali mora,
Sempre morou,
Ela vem,
Se prende,
Se funde,
E vira um só,
Pó,
Tudo,
Nada.
Rodrigo Aylmer
terça-feira, 9 de outubro de 2012
O Verbo Conjugado
Vai, pega essa caneta
Começa a escrever seu testamento
Vai, velho,
Como se fosse dar tempo de terminar
Assina no meio,
Deixa o resto que não importa
Lave as suas mãos e parta
Vai embora
Encontra tua felicidade que há muito se foi
E há muito virá de ser
Será?
Ser
Irá, porque esse verbo perdeu o tempo há muito tempo
Há todo tempo, aliás
Não é infinitivo, nem passado, nem futuro
É eterno
Esse é o verbo em que todos se conjugam
Esse é aquele, você, e o outro
Esse somos todos
Eternos,
Reticências do tempo
Ordem divina
De ser,
De estar,
De haver,
Haja o que houver.
Rodrigo Aylmer
Começa a escrever seu testamento
Vai, velho,
Como se fosse dar tempo de terminar
Assina no meio,
Deixa o resto que não importa
Lave as suas mãos e parta
Vai embora
Encontra tua felicidade que há muito se foi
E há muito virá de ser
Será?
Ser
Irá, porque esse verbo perdeu o tempo há muito tempo
Há todo tempo, aliás
Não é infinitivo, nem passado, nem futuro
É eterno
Esse é o verbo em que todos se conjugam
Esse é aquele, você, e o outro
Esse somos todos
Eternos,
Reticências do tempo
Ordem divina
De ser,
De estar,
De haver,
Haja o que houver.
Rodrigo Aylmer
sábado, 6 de outubro de 2012
Vai e volta
Amor, não se vá
Sentirei sua falta
Te ver tornou-se vital
Quando tu vais,
Respiro mais devagar
Os meus pulmões se fundem
Drena-se o calor do meu corpo
E nascem escamas em minha pele
Eu viro um reptil,
Sangue frio,
Uma especie de ser inanimado
Que se esquiva de tudo
Que segue o seu caminho
Esperando algum dia o sol luzir
E aquecer meu corpo
Que aliás, meu bem,
Encolhe
Ainda que vás, amor,
E sei que deves,
E queres,
Lembra-te de mim,
Que eu estou esperando,
De peito estufado
Mas de braços abertos.
Quero que vás,
Mas que voltes.
Rodrigo Aylmer
Sentirei sua falta
Te ver tornou-se vital
Quando tu vais,
Respiro mais devagar
Os meus pulmões se fundem
Drena-se o calor do meu corpo
E nascem escamas em minha pele
Eu viro um reptil,
Sangue frio,
Uma especie de ser inanimado
Que se esquiva de tudo
Que segue o seu caminho
Esperando algum dia o sol luzir
E aquecer meu corpo
Que aliás, meu bem,
Encolhe
Ainda que vás, amor,
E sei que deves,
E queres,
Lembra-te de mim,
Que eu estou esperando,
De peito estufado
Mas de braços abertos.
Quero que vás,
Mas que voltes.
Rodrigo Aylmer
domingo, 30 de setembro de 2012
O Poema ou a Carta?
Nesses dias me entrentive
E mergulhei numa dúvida cruel:
Devo escrever-te um poema,
Ou uma carta?
Moça, digo que hesitei,
Pensei sete vezes
Pensei mil
Fiz rascunhos e rascunhos
Até minha caneta se encheu de mim
Meus dedos, calejados de tanto escrever
Clamam por misericórdia
E os meus olhos inchados de sono
Se fecham junto com as minhas forças
Moça, me perguntei mil vezes:
Escrevo-te um poema,
Ou uma carta?
Foquei na dúvida
Gastei horas, digo, dias no ócio
Sem saber a resposta
E ninguém soube me dizer
Ninguém nunca saberá
Se devo escrever um poema,
Ou uma carta
Moça, não me julgues insano
É uma questão complicada de desvendar
Pois o poema é a alma que fala
E a carta, os dedos, a forma
Mas ainda não sei, moça, o que te entrego:
A carta, que virá,
Ou o poema, que agora terminei?
Rodrigo Aylmer
E mergulhei numa dúvida cruel:
Devo escrever-te um poema,
Ou uma carta?
Moça, digo que hesitei,
Pensei sete vezes
Pensei mil
Fiz rascunhos e rascunhos
Até minha caneta se encheu de mim
Meus dedos, calejados de tanto escrever
Clamam por misericórdia
E os meus olhos inchados de sono
Se fecham junto com as minhas forças
Moça, me perguntei mil vezes:
Escrevo-te um poema,
Ou uma carta?
Foquei na dúvida
Gastei horas, digo, dias no ócio
Sem saber a resposta
E ninguém soube me dizer
Ninguém nunca saberá
Se devo escrever um poema,
Ou uma carta
Moça, não me julgues insano
É uma questão complicada de desvendar
Pois o poema é a alma que fala
E a carta, os dedos, a forma
Mas ainda não sei, moça, o que te entrego:
A carta, que virá,
Ou o poema, que agora terminei?
Rodrigo Aylmer
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Guri
Sai de casa guri!
Quem te quer?
Quem se importa?
Você não é nada
É um peso
Um desgosto
Um quilo a mais de dor
Se você virar moleque de rua,
Dane-se
Não me importo
O seu choro não passa de um burburinho
É vago
Depois do que você fez
E eu não falo do dia do seu parto
Eu falo do dia em que você mudou
Me agrediu
Você é um calo para mim
Sai daqui, guri,
Você não é nada,
Uma sósia de mim
E nós bem sabemos
Que essa mente é pequena demais
Para nós dois
Rodrigo Aylmer
Quem te quer?
Quem se importa?
Você não é nada
É um peso
Um desgosto
Um quilo a mais de dor
Se você virar moleque de rua,
Dane-se
Não me importo
O seu choro não passa de um burburinho
É vago
Depois do que você fez
E eu não falo do dia do seu parto
Eu falo do dia em que você mudou
Me agrediu
Você é um calo para mim
Sai daqui, guri,
Você não é nada,
Uma sósia de mim
E nós bem sabemos
Que essa mente é pequena demais
Para nós dois
Rodrigo Aylmer
Lembrança
Eu vivo porque já morri
E a minha morte gerou minha vida
O ontem, já morreu
É memória
Foi memória
Foi lembrada
Só que já esqueci
Já esqueci que fui criança
Já esqueci que fui belo
Esqueci que sou jovem
Não sou mais quem eu era
Tudo muda,
Tudo vira,
Deixei de lado o pseudo que fui
Não sou mais eu
Abri mão do meu passado
Para me iludir num presente
Ora, se o passado é morte
E o presente, uma vírgula,
O que se vive, é morte?
Não sei.
Não me importa
Tá bom assim,
Tenho minha casa,
Minha cama,
Meu lençol,
Meu amor.
É tudo ilusão,
Mas é meu.
Afinal,
Não é isso do que se trata?
Rodrigo Aylmer
E a minha morte gerou minha vida
O ontem, já morreu
É memória
Foi memória
Foi lembrada
Só que já esqueci
Já esqueci que fui criança
Já esqueci que fui belo
Esqueci que sou jovem
Não sou mais quem eu era
Tudo muda,
Tudo vira,
Deixei de lado o pseudo que fui
Não sou mais eu
Abri mão do meu passado
Para me iludir num presente
Ora, se o passado é morte
E o presente, uma vírgula,
O que se vive, é morte?
Não sei.
Não me importa
Tá bom assim,
Tenho minha casa,
Minha cama,
Meu lençol,
Meu amor.
É tudo ilusão,
Mas é meu.
Afinal,
Não é isso do que se trata?
Rodrigo Aylmer
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