domingo, 1 de maio de 2011

A Mancha Vermelha

          E ali estava: deitado, esparramado de bruços no chão, como se estivesse escutando alguma coisa. Uma voz. Era isso, estava escutando uma voz. Mas não podia ser, não tinha como ser. Estava estagnado no meio do asfalto, de bruços, sem nenhum sinal de ferida. O trânsito parado, carros buzinando, pessoas gritando com pressa. Imóveis, olhavam para ele como se fosse uma aberração. E ele estava ali, em paz, sem nenhum movimento. Parecia estar bem, até que uma mancha vermelha começou a aparecer no asfalto.
          Ninguém tinha coragem de chegar perto.Ninguém fazia nada. Aos poucos, foi-se acumulando gente em volta do senhor deitado no chão, olhando, vendo, como se fosse uma atração de circo. Ninguém se motivava para ajudar. Ninguém levantava um dedo para socorrer o pobre homem. Ninguém fazia nada.
          Eu me aproximei para ver de perto. E lá estava. Um senhor de idade, beirando os oitenta, com seu suéter azul e sua calça de veludo marrom, naquela sexta feira de sol. Era um cara simples, pobre. Parecia estar lúcido. Ele queria dizer algo, um sussurro, mas em meio de tantos flashs e de pessoas falando, nada se ouvia. Não sei porque aquilo me incomodou. Pessoas morrem todos os dias, aqui, ali, sempre foi assim e sempre vai ser. Mas aquilo era diferente. Podia até não conhecê-lo, mas eu estava ali. E estando ali, fazia parte dos últimos momentos daquele homem.
          É estranho como as coisas acontecem. Os acidentes. Os acasos. A vida mesmo. Ela é uma peça, mas cada vez nos conduz de uma maneira mais desensaiada, imprevisível. Nos leva a fins sem clímax, à um enredo que não sabemos dizer qual. Mas os acidentes, tais não existem. Como já disse, a vida é uma peça, que mesmo sabendo o final, assistimos até o fim, empolgados, achando que será diferente. As escolhas são as mesmas. E tudo se resume nisso. Escolhas.
          À medida que o tempo passava, a mancha vermelha aumentava mais em volta do rosto do pobre homem. E ele não podia fazer nada. Ainda estava ali, respirando, suspirando, sofrendo seus últimos minutos, que, mesmo ruins, eram de fama. Não sei o que ele pensava naquele instante. Devia estar pensando na manchete do dia seguinte: idoso morre atropelado em plena luz do dia no bairro de São Francisco. Não sei se era um daqueles momentos em que toda a sua vida passa diante dos seus olhos. Eu só sei que lentamente escorreu uma lágrima no rosto daquele homem. Uma lágrima de dor e de saudade. Ele sabia o que estava acontecendo. Com muito esforço, franziu a testa em expressão de sofrimento . O tempo era curto. Ele tinha que ir. Não podia mais dizer nada. A ambulância chegou sem pressa e o levou. O alto som da sirene me incomodava os ouvidos.



Rodrigo Aylmer

Tempo Curto

Fechei os olhos e dormi
Mesmo que por cinco minutos
Eu sei que foram curtos
Mas foram eternos

Então feche os olhos e durma
Mesmo que por cinco minutos
Eu sei que serão curtos
Mas serão eternos

Rodrigo Aylmer

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Fazer a Indiferença

      Tive o que dizer e me calei. Não acredito que isso aconteceu. Me juntei ao silêncio dos mudos, aos indiferentes, àqueles que não fazem diferença. Eu não me expressei.
      Tive a oportunidade e me calei. A voz do errado cantou mais alto. Como pude? Como pude não fazer nada? Aqueles olhos me olharam gritando, gritando sem saber, clamando por ajuda. Estampando um pedido de socorro maior do que eles mesmos, clamando por alguém. E eu não fiz nada.
      Ai, essa dor ainda me mastiga. Eu não entendo por que estava assim, tão perto, a oportunidade, mas tão inalcansável, inacessível, longe. O socorro pediu por mim, mas eu o desprezei. A voz do sofrimento berrou em meus ouvidos e, mesmo assim, não quis escutar. Eu sei que posso escolher. E escolhi. Não fiz nada.
      Eu fiz a indiferença. Fui mais um. Um dia me disseram que você só aprende a amar quando começa a se importar com os outros. Quando você olha para aquela pessoa que você não gosta e percebe que ela é falha igual a você. Que ela também ama, que ela também sofre, que ela também tem sentimentos, por mais fechada que seja. Você faz a diferença quando ama os que não amam. E, naquele dia, eu não fiz.
      É verdade, fiz a indiferença. Algumas coisas não tem como a gente mudar. Mas eu sei que, enquanto o sol brilhar na terra,e as pessoas acordarem e saírem de suas casas, oportunidades irão surgir. E eu não quero perder novamente a chance de dar uma chance àqueles que precisam de uma.


Esse texto é para aqueles que alguma vez já deixaram de fazer o que é certo. Há sempre outra chance.

Rodrigo Aylmer

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Soneto à Verdade

Ah se todas as cores, meras cores
Realmente fossem coloridas
Se todas as cores tivessem vida
E pra todas as vidas, amores

Se pra todo pranto houvesse ombro
E para todo ''te amo'', alguém
Se para todo penhasco, escombro
E pra todo manto, gente sem

Se toda alma tivesse partida
Da lucidez ou da ignorância,
Sem a tolerância da culpa vã

Se em todos houvesse infância
E, sonhando, vissem o amanhã
Então a vida não seria a vida


Rodrigo Aylmer

Abriu

Dias frios, me acompanhem
Nessa jornada de melancolia
Me acompanhem no dia a dia

Chuva de outono
Cai no meu ombro e deita
Me molha com sua sede,
Com sua saudade

Chuva de verdade
Finalmente você pode chorar
O sol nasce com sono
E some atrás do horizonte
Com a poeza de só sonhar

Chuva sem dono
Poderia ser seu,
Se soubesse quem eu sou
Tive a sorte de te conhecer
Mas se soubesse quem te choveu
Não sonharia em saber quem eu sou
Só pediria para eu não chover

Chuva de abril
Esse resquício de vontade
Me lembra a saudade
Que eu vou sentir
Quando amanhã você não surgir
E eu ver que seu coração
Finalmente se abriu

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Olhos Verdes

Incríveis olhos verdes
Tão puros,
São puros,
Vão seguros,
No rosro que ela tem

Lindos olhos verdes
São os olhos que ela têm
São os olhos que vêem além
Ah, cor perfeita,
Como eu queria ter-te!

Profundos olhos verdes
Vim vê-los de perto
Quantas histórias já viram
Quantos sorrisos sorriram
Quantos são como vocês?

Ah, cor dos olhos
Por que não estás nos olhos meus?
Vejo a vida em outros olhos
Mas você,
Vê a vida mais verde
Vê mais a vida
E o que são os olhos meus
Se comparados aos seus?

Rodrigo Aylmer

quinta-feira, 31 de março de 2011

A menina de olhos coloridos

Nos tempos difíceis
Quando até a cama é fria
E as core, tão sem cores,
Não respondem à luz do dia

Quando o sol nasce morto
E a lua não cresce mais
Quando pro mar não tem porto
E pro barco não tem cás

Quando a chuva não tem água
E o tempo passa em vão
Quando a dor se transforma em lágrima
E a tristeza em solidão

Quando a risada emudece
E a paz perde a quietude
Quando o homem perde a virtude
E a lembrança, mera lembrança
Se esquece

Quando você cresce
E a vida não acontece
E parece não ter sentido
E não há o que fazer
Tenha fé
Você vai ser sempre você
A menina de olhos coloridos


Rodrigo Aylmer